Siderúrgica Estatal Indiana Compra Usina Falida no ABC Paulista e Herda Passivo Trabalhista de R$ 2 Bilhões

Uma das maiores transações industriais do ano no Brasil acaba de ser confirmada: a Steel Authority of India Limited (SAIL), gigante siderúrgica controlada pelo governo indiano, anunciou nesta semana a aquisição da Usina Metalúrgica São Bernardo, localizada no ABC Paulista, região metropolitana de São Paulo. A empresa brasileira havia encerrado suas atividades em regime de falência no início de 2025, deixando para trás uma dívida trabalhista estimada em R$ 2 bilhões e mais de 4.800 ex-funcionários sem receber verbas rescisórias, fundo de garantia e salários atrasados.

A negociação, mediada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em conjunto com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi concluída por um valor de R$ 1,3 bilhão pelo conjunto de ativos físicos da usina, incluindo maquinário, galpões industriais e terrenos que somam aproximadamente 380 mil metros quadrados às margens do Rio Tamanduateí. A SAIL vence uma disputa que durou quase dezoito meses e que também envolvia consórcios europeus e um grupo chinês com sede em Xangai.

O ponto mais sensível da operação, no entanto, não é o preço pago pelos ativos, mas sim o passivo trabalhista que acompanha o negócio. De acordo com o processo de falência, a massa falida acumulou R$ 2 bilhões em créditos trabalhistas reconhecidos pela Justiça do Trabalho, valor que inclui desde salários atrasados dos últimos oito meses de operação até indenizações por acidente de trabalho e diferenças de FGTS não recolhidas ao longo de anos. A legislação brasileira determina que créditos trabalhistas têm preferência na ordem de pagamento em processos falimentares, o que colocou a SAIL diante de uma negociação complexa com o Ministério Público do Trabalho e os sindicatos da categoria.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, 4 de setembro de 2026, a SAIL afirmou que assumirá “de forma integral e responsável” os compromissos trabalhistas herdados, apresentando um plano de pagamento escalonado ao longo de cinco anos, sujeito à aprovação do juízo falimentar. Lideranças sindicais do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC reagiram com cautela. “Recebemos a notícia com esperança, mas vamos acompanhar de perto cada etapa. Muitos trabalhadores esperam esse dinheiro há mais de um ano e não podem esperar outros cinco”, declarou o presidente da entidade, José Renato Caldeira.

Para o governo federal, a chegada da estatal indiana representa um sinal positivo para a reindustrialização da região do Grande ABC, historicamente um polo metal-mecânico que perdeu força nas últimas décadas. O Ministério do Trabalho informou que já iniciou conversas com a SAIL para garantir a recontratação prioritária de ex-funcionários da usina, com meta de gerar ao menos 2.000 postos de trabalho diretos até o final de 2027.

Analistas do setor apontam que o interesse indiano no parque industrial brasileiro não é isolado. Nos últimos dois anos, empresas da Índia aumentaram seus investimentos no país em 340%, aproveitando a abundância de minério de ferro, energia elétrica competitiva e acesso ao mercado sul-americano. A compra da Usina São Bernardo pode ser apenas o início de uma presença indiana cada vez mais robusta na indústria pesada brasileira.

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