Pescadores Catarinenses Bloqueiam Navio Norueguês e Colocam Marinha em Posição Delicada
Uma tensão inédita tomou conta das águas da costa de Santa Catarina neste sábado, 12 de setembro de 2026, quando dezenas de embarcações de pesca artesanal e industrial formaram um bloqueio ao redor do navio norueguês Bjørn Havfisker, impedindo sua entrada no Porto de Itajaí. A ação, organizada pela Federação dos Pescadores de Santa Catarina (Fepesca), transformou o episódio em um confronto diplomático e trabalhista que coloca a Marinha do Brasil em uma posição extremamente delicada: respeitar os termos de um tratado bilateral assinado entre Brasil e Noruega em 2023, ou ceder à pressão crescente dos sindicatos pesqueiros que ameaçam paralisar toda a atividade portuária da região sul do país.
O Motivo do Bloqueio
Segundo os líderes do movimento, o Bjørn Havfisker opera com tecnologia de arrasto de fundo em áreas que, segundo os pescadores locais, vêm sendo utilizadas irregularmente há pelo menos oito meses. “Eles entram na nossa zona econômica, sugam o que há de melhor no fundo do mar e vão embora. Quem fica com o prejuízo somos nós, que vivemos disso há gerações”, declarou João Aparecido Silveira, presidente da Fepesca, em entrevista coletiva realizada no píer de Itajaí na manhã deste sábado. Os pescadores alegam ainda que a embarcação norueguesa teria sido flagrada operando a menos de 12 milhas náuticas da costa, o que configuraria violação da legislação brasileira independentemente de qualquer acordo bilateral.
O Impasse Diplomático
O tratado de cooperação pesqueira assinado entre Brasil e Noruega em março de 2023 garantiu a embarcações norueguesas licenciadas o direito de operar em determinadas faixas do Atlântico Sul mediante cotas acordadas e fiscalização conjunta. O Ministério das Relações Exteriores emitiu nota no início da tarde reconhecendo a validade do documento e pedindo “que as autoridades competentes garantam o livre acesso da embarcação ao porto, conforme previsto em cláusulas do acordo”. A nota, no entanto, foi recebida com vaias e protestos em Itajaí, onde centenas de pescadores e familiares se concentraram no cais.
A Marinha Entre Dois Fogos
Coube ao Comando do 5º Distrito Naval, sediado em Florianópolis, a tarefa de administrar o impasse no campo prático. Navios-patrulha da Marinha foram posicionados próximos ao bloqueio, mas sem autorização para dispersar as embarcações dos pescadores à força. Fontes internas, que preferiram não ser identificadas, confirmaram ao Mundo Agora que há uma divisão interna entre seguir a orientação do Itamaraty ou reconhecer as alegações de irregularidade apresentadas pela Fepesca e suspender temporariamente o acesso do navio. “É uma crise que expõe a falta de coordenação entre os ministérios”, afirmou o analista marítimo Carlos Drummond Feitosa, do Instituto Brasileiro de Direito do Mar.
O Que Vem Pela Frente
A Fepesca anunciou que manterá o bloqueio por tempo indeterminado e já estuda convocar pescadores do Rio Grande do Sul e do Paraná para ampliar a pressão. Do lado norueguês, a empresa armadora Nordfjord Pescas AS emitiu um comunicado exigindo compensações por cada hora de paralisação. O governo brasileiro prometeu uma reunião emergencial entre os ministérios da Pesca, das Relações Exteriores e da Defesa para a próxima segunda-feira. Enquanto isso, no mar, os motores das pequenas embarcações de Santa Catarina continuam ligados — e os pescadores, irredutíveis.
