Cúpula do Clima em Nairóbi Expõe Racha Entre África e Europa Sobre Quem Paga a Conta
Nairóbi, 17 de agosto de 2026 — O que deveria ser um encontro de consenso transformou-se em um campo de batalha diplomático. A Cúpula do Clima de Nairóbi, que reuniu nesta semana líderes de mais de 80 países na capital queniana, escancarou uma divisão profunda e crescente entre as nações africanas e os países europeus sobre uma questão que não para de voltar à mesa: quem deve financiar a transição climática global?
Desde o primeiro dia da cúpula, o tom foi de confronto velado. Representantes de países como Nigéria, República Democrática do Congo, Etiópia e Moçambique subiram ao pódio com um argumento que se tornou o refrão da semana: o continente africano é responsável por menos de 4% das emissões históricas de gases de efeito estufa, mas suporta algumas das consequências mais devastadoras das mudanças climáticas. Secas prolongadas, ciclones cada vez mais intensos, deslocamento de populações e perdas agrícolas bilionárias fazem parte do cotidiano de uma região que pouco contribuiu para criar o problema.
“Não viemos aqui para pedir favores. Viemos cobrar uma dívida histórica”, declarou a presidente da Comissão da União Africana, Amara Diallo, em um discurso que arrancou aplausos prolongados da plateia africana e silêncio constrangido dos delegados europeus. A frase rapidamente viralizou nas redes sociais e se tornou o símbolo do impasse da cúpula.
Do lado europeu, a resposta foi defensiva, porém calculada. A presidente da Comissão Europeia, Katharina Brenner, reconheceu a responsabilidade histórica do continente, mas argumentou que os mecanismos de financiamento já existentes — incluindo o Fundo de Perdas e Danos criado na COP27 e ampliado nas conferências seguintes — representam avanços concretos. Segundo ela, a Europa já comprometeu mais de 40 bilhões de euros em financiamento climático para países em desenvolvimento até 2030. Os africanos, porém, contestam que apenas uma fração desse valor chegou efetivamente a quem precisava.
A desconfiança em relação aos números europeus é um ponto central do conflito. Organizações independentes presentes em Nairóbi, como o Climate Policy Initiative e o African Climate Foundation, apresentaram relatórios mostrando que grande parte do financiamento climático prometido por países ricos consiste em empréstimos — e não em doações —, o que aprofunda o endividamento de economias já fragilizadas. Para os líderes africanos, pagar juros para adaptar-se a um problema que não criaram é uma injustiça inadmissível.
Outro ponto de atrito foi a pressão europeia para que países africanos abandonem rapidamente seus projetos de exploração de gás natural, setor visto pelo continente como essencial para o desenvolvimento econômico interno. “A Europa se industrializou queimando carvão por dois séculos. Agora fecha a porta e nos diz para usar energia solar”, ironizou o ministro de energia da Tanzânia, Emmanuel Rweyemamu.
Ao fim do segundo dia de negociações, nenhum acordo substantivo havia sido alcançado. As delegações seguem reunidas, mas o clima — tanto o meteorológico quanto o político — está longe de ser ameno. O mundo observa Nairóbi com atenção, ciente de que o desfecho desta cúpula pode definir os rumos da cooperação climática global pelos próximos anos.
