Circo Tradicional Fecha as Portas em São Paulo e Leiloa Acervo para Colecionadores do Dubai

São Paulo, 31 de agosto de 2026 — Um capítulo doloroso da história cultural brasileira se encerra nesta semana. O Circo Esperança, fundado em 1947 na capital paulista e reconhecido como um dos mais tradicionais espetáculos itinerantes do país, anunciou oficialmente o encerramento de suas atividades após 79 anos de história. Mais do que isso, a família Monteiro, proprietária do circo há três gerações, confirmou que todo o acervo histórico da companhia será leiloado para um grupo de colecionadores privados sediados em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A decisão, anunciada na última quinta-feira em uma coletiva de imprensa realizada sob a lona desgastada do famoso picadeiro na Zona Sul de São Paulo, gerou comoção entre artistas, historiadores e frequentadores do circo. Muitos compareceram ao local com cartazes pedindo que o acervo fosse preservado no Brasil, mas a família Monteiro afirmou que não havia alternativa financeira viável para manter o patrimônio em solo nacional.

“Tentamos por anos encontrar parceiros institucionais, prefeituras, o Ministério da Cultura, fundações privadas. As conversas chegaram, avançaram um pouco e sempre pararam no mesmo lugar: falta de recursos e de vontade política”, declarou Renata Monteiro, 54 anos, neta do fundador Oswaldo Monteiro e atual diretora do circo. Com a voz embargada, ela explicou que o grupo árabe ofereceu cerca de 4,2 milhões de dólares pelo conjunto completo do acervo, valor que, segundo ela, representa a única saída para quitar dívidas acumuladas e garantir o sustento dos artistas que ainda fazem parte do elenco.

O acervo do Circo Esperança é extenso e valioso. Entre os itens que seguirão para o Oriente Médio estão fantasias originais dos anos 1950, cartazes pintados à mão por artistas populares, equipamentos de trapézio com mais de seis décadas de uso, fotografias raras de apresentações para presidentes da República e até o diário pessoal de Oswaldo Monteiro, que documentou a trajetória do circo em mais de 40 cadernos manuscritos. Os colecionadores do Dubai, identificados apenas como representantes de uma galeria cultural privada, afirmaram que o acervo será integrado a uma exposição permanente sobre cultura popular latino-americana.

A notícia acendeu um debate urgente sobre as políticas públicas de preservação cultural no Brasil. A historiadora e pesquisadora de artes circenses Adriana Fonseca, da Universidade de São Paulo, classificou o episódio como “uma vergonha nacional”. “O Brasil exporta sua memória porque não sabe cuidar dela. O Circo Esperança é patrimônio imaterial vivo, e estamos assistindo ele ser embalado e enviado para um país que sequer conhece o cheiro de pipoca com serragem”, afirmou.

A última apresentação do Circo Esperança está marcada para o próximo dia 15 de setembro. Os ingressos, disponibilizados gratuitamente pela família Monteiro como forma de despedida, esgotaram em menos de duas horas. Para quem não conseguiu garantir um lugar, haverá transmissão ao vivo pelo canal oficial do circo nas redes sociais. Uma era está chegando ao fim, e o Brasil ainda não sabe bem o que fazer com essa perda.

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