Cazaquistão Rompe com Moscou e Firma Parceria Militar com a Turquia

Em um movimento que reverbera por toda a geopolítica da Ásia Central, o Cazaquistão anunciou oficialmente nesta semana a expulsão de instrutores militares russos de seu território e a contratação da empresa turca de defesa ASELSAN para modernizar e treinar suas Forças Armadas. A decisão, divulgada pelo Ministério da Defesa cazaque em Astana na última segunda-feira, representa uma das mais contundentes sinalizações de independência estratégica do país desde sua separação da União Soviética, em 1991.

Segundo fontes governamentais, os instrutores russos, que operavam no Cazaquistão sob acordos bilaterais herdados do período pós-soviético, receberam notificação formal para deixar o país até o final do mês de setembro de 2026. O governo cazaque não detalhou o número exato de militares afetados, mas analistas estimam que entre 80 e 120 profissionais do Exército russo estavam alocados em diferentes bases e centros de treinamento do país.

O presidente Kassym-Jomart Tokayev, em declaração breve à imprensa estatal, afirmou que o Cazaquistão está “comprometido com a soberania plena de suas instituições de defesa” e que o país busca “parcerias que respeitem seus interesses nacionais sem condicionamentos políticos”. A frase foi amplamente interpretada como uma crítica velada a Moscou, que historicamente utiliza a cooperação militar como instrumento de pressão sobre as ex-repúblicas soviéticas.

Turquia Avança como Parceira Estratégica na Ásia Central

A escolha da ASELSAN não surpreende especialistas em política internacional. A empresa turca, uma das maiores produtoras de tecnologia de defesa do mundo, já fornece equipamentos e treinamento a países como Azerbaijão, Paquistão e diversas nações africanas. Com o contrato cazaque, avaliado em aproximadamente 340 milhões de dólares segundo fontes próximas às negociações, a Turquia consolida sua presença em uma região de imenso valor estratégico, rica em recursos naturais e posicionada entre a Europa, a Rússia e a China.

O acordo prevê um programa de treinamento de três anos para oficiais e soldados cazaques, com foco em guerra eletrônica, uso de drones de combate — incluindo o célebre Bayraktar TB2 — e modernização de sistemas de comunicação militar. A primeira turma de instrutores turcos deve chegar ao Cazaquistão ainda em outubro deste ano.

A Rússia reagiu com evidente desconforto. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, classificou a decisão como “precipitada” e garantiu que Moscou buscará canais diplomáticos para “preservar a cooperação histórica” entre os dois países. Já a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), aliança militar liderada pela Rússia da qual o Cazaquistão ainda faz parte, preferiu não comentar oficialmente o episódio.

Para analistas ouvidos pelo Mundo Agora, o movimento cazaque é mais um capítulo de uma tendência crescente na Ásia Central: países que, sem romper abertamente com a Rússia, buscam diversificar suas alianças e reduzir sua dependência de Moscou. Em um mundo cada vez mais multipolar, o Cazaquistão parece determinado a escrever sua própria história — com ou sem a permissão do antigo irmão mais velho.

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