O Festival de Gramado, realizado entre os dias 14 e 22 de setembro de 2026, encerrou sua 54ª edição com uma polêmica que promete repercutir muito além das montanhas gaúchas. Pela primeira vez na história de um dos festivais de cinema mais tradicionais da América Latina, o direito de participação no júri popular foi comercializado como NFT — tokens não fungíveis registrados em blockchain —, permitindo que compradores de todo o mundo votassem nas categorias competitivas ao lado do público presencial de Gramado. A iniciativa, batizada internamente de ‘Voto Soberano Digital’, dividiu críticos, realizadores e acadêmicos do audiovisual brasileiro entre aqueles que enxergam inovação necessária e os que veem uma capitulação mercadológica que compromete a integridade simbólica do prêmio Kikito.

Como funcionou o modelo de NFT e quem lucrou com ele

A estrutura comercial montada pelo festival em parceria com a plataforma brasileira de ativos digitais CineChain foi simples na concepção e sofisticada na execução. Foram emitidos 12 mil tokens distribuídos em três categorias de acesso: o NFT Tela Básica, vendido por R$ 180, dava direito a voto nas categorias de melhor filme longa-metragem nacional e estrangeiro; o NFT Tela Ouro, a R$ 490, ampliava o acesso para curtas, documentários e animação; e o NFT Tela Diamante, a R$ 1.400, incluía ainda acesso a transmissões exclusivas dos debates com os diretores e uma réplica digital personalizada do Kikito. Segundo dados divulgados pela organização do festival no encerramento, 9.300 tokens foram efetivamente adquiridos, gerando uma receita bruta estimada em R$ 4,7 milhões, parte dos quais seria revertida ao Fundo de Fomento ao Cinema Gaúcho.

O sistema de votação funcionou por aplicativo próprio, com autenticação da carteira digital do comprador, e os votos digitais foram ponderados a uma taxa de 0,4 em relação ao voto presencial — ou seja, para cada voto físico dado na sala de exibição, eram necessários 2,5 votos digitais para equivaler ao mesmo peso. A organização justificou a ponderação como forma de preservar a centralidade do público local, mas a matemática real do resultado final revelou que os votos digitais representaram 38% do total computado, proporção suficiente para inverter a liderança em duas categorias, incluindo a de melhor longa nacional, onde o filme ‘Água Parada’, de Fernanda Valadão, perdeu para ‘O Último Cartógrafo’, de Marcos Siqueira, por margem de menos de 2 pontos percentuais quando os votos digitais foram consolidados.

Por que a academia e os realizadores reagiram com tamanha intensidade

A reação mais contundente veio de um grupo de 34 diretores e produtores que assinou uma carta aberta publicada no dia 20 de setembro, dois dias antes da cerimônia de encerramento, intitulada ‘O Kikito não é um produto financeiro’. O documento argumenta que a venda de direitos de voto transforma o reconhecimento artístico em objeto de consumo especulativo, já que NFTs podem ser revendidos em mercado secundário — e de fato houve registros de tokens sendo negociados na CineChain por até R$ 3.200 à medida que a cerimônia se aproximava e o interesse crescia. Para os signatários, isso cria um mecanismo em que grupos organizados com poder financeiro podem concentrar votos e direcionar resultados, esvaziando o caráter democrático que o júri popular historicamente representa.

A cineasta Aline Mosca, uma das principais vozes críticas do movimento, foi precisa ao apontar o problema estrutural: o festival vendeu um direito cívico dentro de seu ecossistema como se fosse uma mercadoria, e isso altera o contrato implícito entre o prêmio e o público. O argumento tem peso histórico: o júri popular de Gramado nasceu nos anos 1970 como contraponto ao júri técnico, com a função explícita de representar o gosto e o julgamento do cidadão comum que vai ao cinema sem compromisso com escola estética ou escola crítica. Inserir uma camada de acesso pago e tokenizado nessa equação muda fundamentalmente quem é esse ‘povo’ que vota.

Do outro lado, realizadores como o produtor Sérgio Murat e a diretora Camila Furtado defenderam a iniciativa como resposta legítima à crise de financiamento enfrentada pelos festivais depois da pandemia de 2020 e dos cortes orçamentários federais ao setor cultural entre 2023 e 2025. Para esse grupo, a alternativa ao modelo NFT seria a redução de filmes competindo, o encolhimento da programação paralela ou simplesmente o fim do festival em médio prazo. O argumento prático tem sustentação: Gramado chegou a 2025 com um déficit operacional acumulado de R$ 8,3 milhões, conforme balanço divulgado pelo Instituto Festival de Gramado.

O que esse modelo significa para o futuro dos festivais brasileiros

Independentemente do julgamento moral sobre a iniciativa, o impacto prático já começou a se materializar. Pelo menos três outros festivais nacionais — o É Tudo Verdade, o Cine PE e o Festival de Brasília — foram procurados por plataformas de tokens digitais com propostas similares nas semanas que antecederam o encerramento de Gramado, segundo informações apuradas pela reportagem junto a organizadores. O modelo de Gramado funcionou como prova de conceito para um mercado que enxerga nos festivais de cultura uma audiência engajada e com disposição de pagamento que o modelo tradicional de ingresso não conseguia capturar.

Há também uma dimensão geopolítica relevante: dos 9.300 compradores de NFT, aproximadamente 2.100 estavam fora do Brasil — concentrados em Portugal, Argentina, Estados Unidos e Alemanha. Isso significa que cidadãos sem qualquer relação com o mercado audiovisual brasileiro, sem obrigação de acompanhar a produção nacional ao longo do ano e sem o contexto cultural necessário para avaliar os filmes com a profundidade que o voto pressupõe participaram de decisões que definem quais narrativas recebem visibilidade e financiamento futuro. Festivais de cinema não são apenas eventos culturais: são instâncias de legitimação que determinam quais filmes entram em cartaz, quais são submetidos ao Oscar, quais atraem co-produções internacionais.

O que observar nos próximos meses e o que esse episódio revela

O Festival de Gramado abriu uma caixa que dificilmente será fechada. Não porque o modelo de NFT seja irreversível, mas porque ele expôs uma tensão que o setor audiovisual brasileiro empurrou para debaixo do tapete por anos: a contradição entre a necessidade de financiamento privado e a pretensão de que prêmios culturais públicos operem com critérios imunes ao mercado. Essa contradição existe há décadas nos patrocínios de grandes empresas que financiam festivais em troca de visibilidade, mas a tokenização do voto torna essa tensão explícita e mensurável de uma forma que nenhum patrocínio tradicional conseguia fazer.

O que observar daqui em diante é se a Ancine, a agência reguladora do audiovisual brasileiro atualmente em processo de reestruturação sob o Ministério da Cultura, vai estabelecer diretrizes sobre modelos de votação em festivais financiados com recursos públicos. É se os próprios realizadores vão transformar a indignação da carta aberta em proposta alternativa de sustentabilidade ou se a crítica vai evaporar sem deixar solução. E é, sobretudo, se o Kikito entregue a ‘O Último Cartógrafo’ vai carregar consigo a sombra da dúvida sobre sua legitimidade — porque prêmios vivem de credibilidade, e credibilidade, ao contrário de token, não tem blockchain que a registre.

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