Cooperativa Wixárika Vende Carbono Florestal Diretamente à Bolsa de Chicago e Corta Funai do Processo

São Paulo, 16 de setembro de 2026 — Em um movimento que promete redesenhar as relações entre povos indígenas, mercados financeiros internacionais e o Estado brasileiro, a Cooperativa Florestal Wixárika anunciou nesta semana a conclusão de seu primeiro contrato direto de venda de créditos de carbono com a Chicago Climate Exchange (CCX), a maior bolsa de carbono das Américas. O acordo, avaliado em aproximadamente 4,2 milhões de dólares, cobre uma área de 180 mil hectares de floresta nativa preservada no estado de Jalisco, no México, e representa um marco histórico para a autonomia econômica dos povos originários.

O aspecto mais disruptivo da negociação, no entanto, não é o valor financeiro — é o caminho percorrido. Pela primeira vez, uma cooperativa indígena operou integralmente sem intermediação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) ou de qualquer outro órgão estatal equivalente no processo de certificação, negociação e liquidação dos créditos. A operação foi conduzida diretamente pelos representantes da cooperativa, com assessoria de um escritório jurídico especializado em direito ambiental internacional e uma fintech indígena sediada em Guadalajara.

“Nós conhecemos cada árvore dessas 180 mil hectares melhor do que qualquer burocrata em Brasília ou Cidade do México”, afirmou Xitákame Carrillo, presidente da Cooperativa Wixárika, em entrevista exclusiva ao Mundo Agora. “Este contrato não é apenas dinheiro. É a prova de que somos sujeitos econômicos capazes de dialogar com o mundo em nossos próprios termos.”

A exclusão da Funai do processo acendeu um debate acalorado no Brasil. Especialistas em direito indigenista alertam que, embora o caso seja mexicano, o precedente cria pressão imediata para que organizações indígenas brasileiras reivindiquem o mesmo modelo. A Funai, por sua vez, emitiu nota afirmando que “a tutela institucional existe para proteger os direitos originários e não deve ser confundida com obstáculo ao desenvolvimento”. Críticos, porém, argumentam que a nota revela exatamente o problema: a lógica tutelar ainda presente na mentalidade do órgão.

No mercado financeiro, a repercussão foi igualmente intensa. Analistas da CCX destacaram que os créditos Wixárika obtiveram certificação Gold Standard com pontuação máxima em co-benefícios sociais, o que elevou seu preço unitário acima da média do mercado voluntário global. “Projetos com governança indígena direta estão se tornando o ativo mais valorizado no portfólio de carbono de grandes corporações”, explicou a analista Patricia Wen, da consultoria Verra Climate.

O modelo adotado pela cooperativa inclui um fundo comunitário que destinará 30% das receitas para educação bilíngue, saúde tradicional e infraestrutura hídrica nas aldeias. Os outros 70% serão reinvestidos em tecnologia de monitoramento florestal por satélite, operada pelos próprios indígenas em parceria com uma universidade pública mexicana.

Para pesquisadores do tema, o caso Wixárika sinaliza uma virada estrutural. “Estamos assistindo ao nascimento de uma nova geopolítica florestal”, analisa a antropóloga Carla Mendonça, da USP. “Os povos da floresta estão deixando de ser objetos de políticas ambientais para se tornarem protagonistas de mercados globais. Isso muda tudo.”

O próximo passo da cooperativa é replicar o modelo em outras quatro terras indígenas do México e estabelecer um consórcio com organizações amazônicas brasileiras que estudam caminhos semelhantes — desta vez, com ou sem a bênção do Estado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *