Um navio cargueiro brasileiro foi impedido de atracar no Porto de Roterdã, na Holanda, depois que a Autoridade Portuária local recusou aceitar o certificado de origem da carga — um documento emitido pelo sistema Siscomex Origem, plataforma que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) descontinuou oficialmente há quatro meses, em junho de 2026. O episódio, que se tornou público nesta semana, expõe uma falha grave de transição entre sistemas governamentais brasileiros e seus reflexos imediatos sobre exportadores, tradings e operadores logísticos que movimentam cargas com destino à Europa. A situação coloca em xeque a confiabilidade da infraestrutura digital de certificação do comércio exterior brasileiro em um momento em que o país busca ampliar sua presença nos mercados internacionais.
O que aconteceu: certificado emitido em sistema que o Brasil já enterrou
O certificado de origem em questão foi gerado por uma empresa exportadora brasileira do setor de proteínas animais, com destino a um importador nos Países Baixos. O documento foi emitido pelo Siscomex Origem, sistema que o MDIC utilizava para processar e validar certificados de origem preferencial e não preferencial no âmbito dos acordos comerciais firmados pelo Brasil. O problema é que a plataforma deixou de ser o canal oficial em 12 de junho de 2026, quando o ministério migrou definitivamente para o novo módulo integrado ao Portal Único de Comércio Exterior, o Comex Mais.
A transição, anunciada com antecedência de cerca de 90 dias, previa que todos os certificados emitidos a partir da data de descontinuação deveriam obrigatoriamente sair pelo novo sistema. O que o MDIC não comunicou com clareza suficiente — ao menos não de forma que chegasse aos portos europeus — foi o status dos certificados emitidos antes da migração, mas com vigência estendida, e tampouco garantiu que as autoridades estrangeiras parceiras fossem notificadas formalmente sobre a mudança nos padrões de emissão e verificação dos documentos brasileiros.
Em Roterdã, quando os agentes da autoridade portuária tentaram validar o certificado por meio do sistema de verificação eletrônica que integra o banco de dados do MDIC, o retorno foi negativo: o Siscomex Origem simplesmente não está mais ativo para consultas externas. Sem confirmação digital da autenticidade, a carga ficou retida e o navio foi obrigado a permanecer fundeado enquanto o exportador e o despachante aduaneiro tentavam resolver a situação de dentro do Brasil.
A falha de comunicação internacional que ninguém preveniu
Migrações de sistemas governamentais em comércio exterior não são novidade e, quando bem conduzidas, envolvem uma etapa essencial que vai além do público interno: a notificação formal aos parceiros comerciais internacionais, às autoridades alfandegárias estrangeiras e às câmaras de comércio bilaterais. No caso brasileiro, essa etapa parece ter sido negligenciada ou conduzida de forma insuficiente.
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, cujos protocolos técnicos foram sendo consolidados ao longo de 2025 e início de 2026, estabelece procedimentos específicos para a verificação de certificados de origem. Dentro desse arcabouço, as autoridades europeias têm o direito — e a obrigação — de rejeitar documentos que não possam ser verificados pelos canais acordados. Quando o Brasil tirou do ar o Siscomex Origem sem garantir que um espelho de consulta ou uma ponte de verificação estivesse disponível para autoridades estrangeiras, criou um vácuo que, na prática, torna suspeito qualquer certificado emitido durante o período de transição.
Fontes ligadas à Câmara de Comércio Brasil-Holanda confirmaram que não receberam comunicação oficial do MDIC sobre a descontinuação do sistema antes de junho, e que a primeira sinalização de que algo havia mudado veio de exportadores que começaram a relatar dificuldades em explicar a mudança para seus parceiros europeus. O silêncio institucional criou um cenário onde cada empresa ficou por conta própria para explicar às autoridades estrangeiras uma decisão administrativa brasileira de escopo nacional.
Impactos na cadeia exportadora e precedente preocupante
O caso do navio em Roterdã não deve ser tratado como episódio isolado. Operadores do setor apontam que, nos últimos dois meses, pelo menos outros seis carregamentos com destino a portos europeus enfrentaram questionamentos documentais relacionados à mesma descontinuação. A maioria foi resolvida por vias diplomáticas ou mediante a reemissão apressada dos certificados pelo novo sistema, mas o custo operacional desses processos recai integralmente sobre os exportadores.
No caso específico do navio retido em Roterdã, os prejuízos incluem taxas de fundeio, custo de renegociação com o importador europeu, possível multa contratual por atraso na entrega e despesas com assessoria jurídica especializada em direito aduaneiro internacional. Estimativas preliminares do setor de logística marítima apontam que situações dessa natureza podem gerar perdas entre 80 mil e 250 mil euros por ocorrência, dependendo do volume da carga e das cláusulas contratuais envolvidas.
Além do impacto financeiro imediato, há um dano reputacional de médio prazo que não pode ser medido em planilhas. Exportadores brasileiros que precisam negociar novos contratos com importadores europeus agora carregam a incerteza sobre a confiabilidade documental do país de origem. Em setores altamente competitivos como carnes, soja processada e produtos manufaturados, essa percepção de risco adicional pode ser suficiente para um importador europeu preferir um fornecedor argentino, australiano ou americano.
O que observar daqui em diante e o que o governo precisa fazer já
O MDIC ainda não emitiu nota oficial sobre o episódio de Roterdã até o fechamento desta reportagem. O silêncio, por si só, é um indicativo da gravidade do constrangimento institucional envolvido. O que o ministério precisa fazer com urgência, segundo especialistas em comércio exterior ouvidos pela reportagem, é tríplice: primeiro, ativar imediatamente um canal de consulta e verificação de certificados históricos do Siscomex Origem acessível a autoridades estrangeiras, mesmo que em modo somente leitura; segundo, emitir comunicado oficial às autoridades aduaneiras dos principais parceiros comerciais do Brasil, especialmente nos países da União Europeia; e terceiro, publicar orientação clara para os exportadores sobre como proceder em caso de questionamentos a certificados emitidos durante o período de transição.
A situação também levanta uma questão estrutural mais ampla: o Brasil não tem um protocolo consolidado para a transição de sistemas de certificação com validade internacional. Cada vez que o governo moderniza sua infraestrutura digital de comércio exterior — o que é necessário e positivo — existe o risco de criar rupturas que o setor privado paga na ponta. A solução não é frear a modernização, mas institucionalizar processos de transição que contemplem obrigatoriamente a dimensão internacional do comércio, notificando parceiros com antecedência suficiente e mantendo pontes de verificação ativas por pelo menos 12 meses após qualquer descontinuação.
O Porto de Roterdã é a maior plataforma logística da Europa e um termômetro da credibilidade dos países exportadores que por ali circulam. Ser barrado ali por um problema administrativo doméstico não é apenas uma crise operacional — é um sinal que o mercado internacional vai registrar e que o Brasil precisará trabalhar para reverter, com ações concretas e comunicação transparente, antes que outros navios enfrentem o mesmo obstáculo.
