Coreia do Sul Financia Reator Nuclear no Cazaquistão e Isola França no Mercado de Energia Atômica da Ásia Central
Em um movimento que redefine o tabuleiro geopolítico da energia nuclear na Ásia Central, a Coreia do Sul anunciou, nesta semana, o financiamento integral de um reator nuclear de última geração no Cazaquistão, consolidando uma parceria estratégica que promete transformar a matriz energética do país e, ao mesmo tempo, marginalizar a França em um mercado considerado historicamente disputado pelas potências ocidentais. O acordo, firmado em Astana no último dia 01 de setembro de 2026, representa a maior transação sul-coreana no setor de energia atômica fora de suas fronteiras.
O contrato envolve a construção de um reator do tipo APR-1400, tecnologia desenvolvida pela Korea Hydro & Nuclear Power (KHNP), com capacidade para gerar 1.400 megawatts de energia elétrica. O investimento total é estimado em 8,5 bilhões de dólares, com financiamento garantido pelo Banco de Exportação e Importação da Coreia do Sul (Korea Eximbank), além de participação do fundo soberano sul-coreano. A previsão é que o reator entre em operação até o ano de 2034, atendendo a uma demanda crescente por energia limpa em um país que abriga as maiores reservas de urânio do mundo.
O golpe é especialmente duro para a França. A empresa estatal francesa EDF e o grupo Framatome vinham negociando com Astana há mais de três anos a construção de um reator do modelo EPR2, considerado a joia da coroa da indústria nuclear europeia. As conversas avançaram em diversas frentes diplomáticas, inclusive com visitas do então presidente Emmanuel Macron ao Cazaquistão em 2023. No entanto, atrasos nas negociações, questionamentos sobre os custos elevados do modelo francês e as recentes dificuldades enfrentadas pelos projetos EPR no Reino Unido e na Finlândia pesaram negativamente na balança cazaque.
Autoridades em Seul celebraram o acordo como um marco histórico. O ministro sul-coreano de Indústria, Comércio e Energia, Ahn Deok-geun, declarou que o contrato “abre as portas da Ásia Central para a tecnologia nuclear coreana” e que o país pretende expandir sua presença em outros mercados emergentes, como o Uzbequistão e o Azerbaijão, nos próximos anos. A Coreia do Sul já havia demonstrado sua competitividade no setor ao construir quatro reatores nos Emirados Árabes Unidos, entregues dentro do prazo e do orçamento previsto.
Para o Cazaquistão, a escolha sul-coreana representa não apenas uma solução energética, mas também uma aposta na diversificação de suas parcerias estratégicas, reduzindo a dependência histórica da Rússia e da China no setor de infraestrutura. O presidente Kassym-Jomart Tokayev enfatizou que o acordo reforça a soberania energética do país e sua ambição de se tornar um hub de energia limpa na região.
Analistas ouvidos pelo Mundo Agora apontam que a derrota francesa no Cazaquistão pode ter repercussões mais amplas, acendendo um alerta sobre a competitividade da indústria nuclear europeia frente aos modelos asiáticos. Para Paris, a perda vai além do aspecto financeiro: representa um recuo de influência em uma região onde a Europa tenta, cada vez com mais dificuldade, manter presença relevante.
