Água do Aquífero Guarani Vira Alvo de Fundo Americano e Acende Debate sobre Soberania no Congresso

Brasília, 30 de agosto de 2026 — Um movimento silencioso, mas de enormes proporções, está agitando os corredores do Congresso Nacional e preocupando especialistas em recursos naturais em todo o Brasil. Um fundo de investimentos norte-americano, identificado como Waterfield Capital Group, com sede em Nova York, teria adquirido nos últimos 18 meses propriedades rurais estrategicamente localizadas sobre o Aquífero Guarani, em estados como Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás. A revelação, feita inicialmente por uma investigação do portal Agência Pública e confirmada por documentos obtidos junto aos cartórios de registro de imóveis, acendeu um alerta vermelho sobre a soberania brasileira em relação ao maior reservatório de água doce subterrânea do mundo.

O Aquífero Guarani é uma formação geológica que se estende por aproximadamente 1,2 milhão de quilômetros quadrados, abrangendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No território brasileiro, concentra-se a maior parte da reserva, estimada em cerca de 37 bilhões de metros cúbicos de água — um ativo que, diante das crescentes crises hídricas globais, tem se tornado cada vez mais valioso. Especialistas apontam que o controle de terras sobre o aquífero pode representar, na prática, o controle indireto sobre o acesso à água que brota em seus poços.

A senadora Marlene Vasconcelos (PT-MS) protocolou nesta semana um requerimento solicitando a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a compra de terras por estrangeiros em regiões sobrepostas ao aquífero. “Estamos diante de uma ameaça real à nossa soberania hídrica. Não podemos tratar água como commodity e entregar nosso futuro a interesses externos”, declarou a parlamentar em discurso inflamado no plenário do Senado na última quinta-feira, 27 de agosto.

Do outro lado do espectro político, vozes no Congresso defendem que as aquisições seguiram a legislação vigente e que o capital estrangeiro pode ser bem-vindo no desenvolvimento do agronegócio sustentável. O deputado federal Ricardo Monteiro (União-SP) argumentou que “criminalizar investimento estrangeiro sem provas concretas de irregularidade é populismo econômico”. O debate, no entanto, vai além da divisão ideológica e toca num ponto sensível: a Lei 5.709/1971, que restringe a compra de terras rurais por estrangeiros, tem brechas amplamente conhecidas que permitem que empresas constituídas no Brasil, mas controladas por capital externo, adquiram propriedades sem maiores obstáculos.

O Waterfield Capital Group não respondeu aos pedidos de comentário enviados pelo Mundo Agora até o fechamento desta edição. O Ministério do Desenvolvimento Agrário informou que está apurando as informações e que qualquer irregularidade será comunicada ao Ministério Público Federal. Enquanto isso, organizações ambientais e movimentos sociais já convocaram um ato público para o próximo dia 6 de setembro, data que antecede as celebrações da Independência, para chamar atenção ao que chamam de “nova corrida colonial pelo ouro azul do Brasil”.

O episódio reacende um debate que o país não pode mais adiar: em um mundo onde a água potável se torna cada vez mais escassa e disputada, o Brasil possui um dos maiores tesouros hídricos do planeta. A pergunta que ressoa nos corredores do poder — e nas ruas — é simples e urgente: a quem pertence essa riqueza?

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